
O conceito rave, nascido no final dos anos 80 e fortalecido e advindo da produção da música eletrônica, foi formatado em festas em espaços abertos fora do perímetro urbano das cidades ou em galpões abandonados da periferia, ao som da música hipnótica techno e de drogas como o Ecstasy e o ácido. Como idéias principais, os ravers acredita(va)m no dogma Plur (peace, love, unity and respect - paz, amor, unidade e respeito). A música, "executada" em pick ups (pratos toca-discos de vinil) por DJ's , envolvia os clubbers, ravers em danças por horas a fio, numa grande celebração tribal de alegria e êxtase.
Acontecendo fora das mídias, essa cena sempre usou suportes de divulgação independentes das mídias comerciais. Flyers, telefones móveis, sites, chats, listas de discussão na Internet eram - e são - os principais recursos de divulgação dos eventos e idéias em torno da música eletrônica, sempre baseada na alta tecnologia. A cena, portanto, é marcada pelos conceitos do underground (música experimental sem caráter comercial, formas alternativas de informação...) até que foi se tornando - as raves, as technoparties - uma possibilidade de lucro, um negócio, um empreendimento. Promoters mais comerciais entram na cena e levam-na para o mainstream, para o mercado: as raves passam a ser produto de consumo e ganham espaço em mídias tradicionais. Se compararmos historicamente a trajetória desta cultura nos EUA e Europa, essas características comerciais estão presentes desde o início da cena.
Um outro aspecto é que as tribos não existem apenas e nem se formam estritamente a partir do dogma paz, amor, unidade respeito e da música, mas, principalmente, em torno das vertentes, dos estilos da música eletrônica (house, tecno, trance e breakbeats...) - gerando novos comportamentos e formas de sociabilidade.
Webzines se especializam em vertentes. Listas de discussão específicas são criadas para debater cenas dentro da cena. Ou seja, surgem e se consolidam novas comunidades virtuais em torno da Cultura da Música Eletrônica; novos agrupamentos florescem associados especificamente a estilos da música binária
No âmbito do ciberespaço, no ano de 1999, duas novas listas de discussão foram criadas no Brasil (já havia a BR-Rave destinada ao tecno e ao house, principalmente). Agora os integrantes da cena se segmentam em fóruns específicos de música trance e de drumNbass.
E mais: surgem outras tribos com comportamentos “estranhos” às origens dogmáticas do Plur na cena rave. Esses grupos incorporam até a "treta" (briga de tribos) em seu comportamento para defender suas idéias. São os Cybermanos - saídos da periferia de grandes centros urbano, como São Paulo. Em seu site “Esta é verdadeira história clubber” eles se afirmam como os verdadeiros clubbers e identificam inimigos de sua cena, particularmente os carecas (skinheads) do ABC Paulista, os punks e os skatistas.
Por outro lado, as características mais associadas ao conceito do Plur (a produção underground da música eletrônica, distribuição independente de CDs e Vinis, festas não comerciais, DJ's, tribos...) estão presentes tanto em grandes centros metropolitanos, mas igualmente em cidades menores, menos desenvolvidas e até subdesenvolvida. Situação que reforça a idéia de uma cultura rizomática (universal, com conexões em diferentes regiões do planeta) e da desterritorialização da Cultura da Música Eletrônica - dado que aponta um caminho de crescimento globalizante. A cultura da música eletrônica é um elemento do Rizoma, associada às redes de conectividade.
Essa arte - a música eletrônica -, gerada com base na micro-informática e outras tecnologias decorrentes ou não da micro-informática, trazem também a característica da autonomia e da centralização dos processos de produção. De posse de um pequeno aparato tecnológico, o produtor músical cria sua música (techno, house, jungle, trance etc), gera suportes (vinis, MDs, CDs, arquivos temporários em redes de computadores como ra, mp3, wav, mids, etc) para a difusão de sua arte, sem a necessidade de compromissos contratuais e dependências de estruturas comerciais tradicionais.
O conjunto desta produção mundial gera também um enorme banco de dados para uma reciclagem infinita: o sample (o recorte, a amostra) é o elemento fundamental para a mixagem e a re-mixagem na criação de novos sons, de novas músicas. Conforme afirma Lévy (1999: 136): “A música techno colhe seu material na grande reserva de amostras (samples) de sons”.
O caráter rizomático, espaços de sociabilidade nas nets e a criação de instrumentos de difusão alternativa das informações garantem a permanência de conceitos autênticos de uma estética que o mainstream (atuando mais localmente, em função de um retorno financeiro mais urgente) não poderá destruir e nem mesmo acompanhar. A rapidez da transferência de informações de qualidade underground, não comercial da Cultura da Música Eletrônica (principalmente através das redes de conectividade), permite e reforça os conceitos mais "roots" (mais enraizados) de uma estética que o mercado decodifica com lentidão e sem a mesma destreza de quem integra e percorre os caminhos da cena underground.
Esses conceitos são defendidos pelas comunidades virtuais ligadas a e-music e reforçados nos suportes que incrementam essas comunidades dentro da Net (selos alternativos de vinis, cd´s, listas de discussão, sites, chat...) e fora dela (revistas especializadas, festas, lojas alternativas, pontos de encontro, bares e clubes, raves...). Nesse sentido, a Cultura da Música Eletrônica, associada sempre às tecnologias contemporâneas, não perderá seu fio condutor inicial (da cena rave, da música underground), pois conta com a autonomia das tribos em relação ao mercado tradicional. Por outro lado, estamos numa situação pós-Cultura Rave: há a presença do underground, há fortes elementos comerciais na cena, há focos do dogma Plur e o surgimento de novas tribos. A Cultura Rave sofre uma transformação (passa a ser cena) já não norteia, mas integra a Cultura da Música Eletrônica.
O Brasil também conta com excelentes DJ's profissionais, com elevado conhecimento técnico no djing e de excelente background (referências e conhecimento aprofundado da cultura disco e eletrônica). O fato de djs brasileiros começarem a sair do País como profissionais é um elemento ponderador dessa qualidade - Mark Marky, produtor e dj de jungle, saído da zona leste de São Paulo, toca em várias festas na Europa, sendo residente em clubes de vanguarda de DrumAndBass em Londres.
Redigido por: Vitor Nogueira e Davi Tavares (Editoração)
Um comentário:
Muito interessante o texto!!!
Acho que as unicas críticas possíveis são em relação aos termos colocados várias vezes entre aspas como "roots" e etc, sendo seguidos de sua explicação formal. Acredito que o uso dos termos é desnecessária.
Outro comentário é que DJ vem do termo Disc Jocker, por isso não compreendi o uso de Dee Jays.
Abraços e até mais!
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