quarta-feira, 13 de junho de 2007

MARGINALIZAÇÃO, CONFUSÃO DE IDENTIDADES E EXCLUSÃO DIGITAL

A influência da globalização e da mídia não se limita à integração “bem resolvida” de mais de uma cultura em identidades híbridas ou multiculturais, que, em geral, limitam-se aos jovens de classe média (Arnett, 2002). Quando os jovens são expostos aos valores da cultura global, podem perder o interesse em manter sua cultura original, mas também rejeitarem ou não se integrarem à nova cultura porque esta vai contra os seus valores ou por falta de oportunidades, emprego, baixa renda, etc. (Arnett, 2002). O resultado é o que Arnett chama de confusão de identidades, com a conseqüente marginalização e tendência a maiores taxas de depressão, suicídio e abuso de drogas. Esse processo de aculturação seguido de marginalização é bastante conhecido entre nós e já foi estudado em profundidade no Brasil, em especial com relação às populações descendentes de negros africanos e indígenas (Ribeiro, 1995). Em nosso país, além daquelas conseqüências mencionadas por Arnett (2002), temos o aumento da violência urbana e do envolvimento de populações carentes com atividades ilícitas, tais como contrabando e tráfico de drogas (Noto e Formigoni, 2002; Zaluar, 2002).

Se esse processo de marginalização não é desconhecido para nós, brasileiros, um novo fator de risco está em emergência, com possibilidade de aumentar as desigualdades sociais: a exclusão e a divisão digital, a separação entre uma parcela da sociedade com acesso à internet e às tecnologias mais recentes e outra que vê, adicionadas às suas já existentes desvantagens, a falta de acesso aos serviços, informações e aprendizagens disponíveis apenas na rede, tendo como resultado a diminuição de sua inserção na economia (Castells, 2003; Foxhall, 2000).

Outra conseqüência da confusão de identidades, segundo Arnett (2002), é a possibilidade de escolhas individuais entre diferentes culturas. Essas escolhas são aquelas que pessoas com interesses e visões em comum fazem ao unir-se a determinados grupos para adquirir um senso de identidade que não é mais possível obter nem na cultura local, nem na cultura global. Nessa categoria, Arnett (2002) cita como exemplos os grupos religiosos fundamentalistas, os movimentos sociais antiglobalização e grupos que reagem de maneira relativamente desorganizada, como os metaleiros (heavy metal), aos quais sugerimos adicionar alguns tipos de hackers, punks e skinheads. Um aspecto não analisado por Arnett (2002) é que o fluxo de informações na globalização não é apenas unidirecional como transparece no seu artigo. Yoga, tai chi chuan e outras técnicas orientais de meditação, há vários anos, são hábitos de parte da população das sociedades urbanas industrializadas do Ocidente. No mundo acadêmico, a meditação e o conceito de self do budismo sairam dos domínios da religião e da filosofia e encontram-se presentes, de forma incipiente, na medicina psicossomática (Davidson et al, 2003; Speca et al., 2000), nas neurociências cognitivas (Varela, Thompson e Rosch, 2003) e na Psicologia (Seeman, Dubin & Seeman, 2003; Dingfeldeer, 2003). Nas palavras do neurocientista Francisco Varela (2003, p. 47), a meditação “pode ser considerada um tipo de experimentação que faz descobertas sobre a natureza e o comportamento da mente”.

Em suma, como resultado da globalização econômica e cultural, as pessoas mais jovens encontram-se, cada vez mais, frente a questões de escolhas entre identidades culturais diferentes e, às vezes, conflitantes com os valores sociais tradicionais.

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